O que falta para o Rio Jundiaí avançar mais na recuperação da qualidade da água?
Após décadas de investimentos em saneamento, o manancial entrou em uma nova fase de desafios, que envolve drenagem urbana, poluição difusa, ocupação do território e fiscalização ambiental.
A recuperação do Rio Jundiaí entrou em uma etapa diferente. Depois de décadas de investimentos em coleta e tratamento de esgoto, a discussão sobre a qualidade da água agora envolve problemas que vão além do lançamento de esgoto doméstico e industrial.
Esse foi um dos principais assuntos da 7ª edição do encontro “Conversando sobre o Rio Jundiaí – Ele passa por aqui”, realizado na quarta-feira (23), no auditório Planeta Água, da DAE Jundiaí. O evento reuniu representantes de órgãos públicos, empresas de saneamento, instituições e especialistas ligados à gestão dos recursos hídricos.
A recuperação do rio começou há décadas
O Rio Jundiaí tem uma história marcada por forte degradação ambiental, principalmente em razão do lançamento de efluentes domésticos e industriais.
A recuperação foi construída ao longo de décadas, com participação de municípios, órgãos ambientais, empresas de saneamento e Comitês PCJ. Em Jundiaí, os investimentos em redes de coleta e estações de tratamento de esgoto tiveram papel importante nesse processo.
Um dos principais marcos ocorreu em 2017, quando o último trecho que ainda estava enquadrado como Classe 4 foi alterado para Classe 3. A decisão foi referendada pelo Conselho Estadual de Recursos Hídricos de São Paulo por meio da Deliberação CRH nº 202/2017.
Com isso, o Rio Jundiaí tornou-se o primeiro rio do país a ter seu enquadramento totalmente alterado de Classe 4 para Classe 3.
A mudança não significa, porém, que todos os problemas de qualidade da água tenham desaparecido.
O desafio agora é manter e efetivar a Classe 3
O acompanhamento da qualidade da água mostra que ainda existem parâmetros que precisam ser monitorados e melhorados para que as condições do rio estejam de acordo com as metas estabelecidas para o enquadramento.
Em 2025, os Comitês PCJ já haviam destacado problemas relacionados a alguns indicadores e apontado a necessidade de ampliar a coleta e melhorar a eficiência do tratamento de esgoto, recuperar matas ciliares, fazer manejo adequado do solo, reforçar o licenciamento e a fiscalização e revisar metas e cronogramas quando necessário.
A discussão de 2026 amplia esse olhar.
A chuva também leva poluição para o rio
Quando se fala em despoluição de um rio, é comum pensar primeiro no esgoto. Mas a água da chuva também pode carregar uma quantidade significativa de materiais presentes nas cidades.
Óleo, sedimentos, resíduos, partículas e outros poluentes acumulados nas ruas podem ser transportados pela drenagem urbana até córregos e rios.
Por isso, a drenagem das cidades passou a ocupar espaço maior nas discussões sobre a bacia do Rio Jundiaí. O controle da chamada poluição difusa depende de ações que envolvem não apenas o saneamento, mas também planejamento urbano, manejo do solo e ocupação adequada do território.
Ocupação urbana entra no debate
Outro ponto discutido no encontro foi a relação entre o crescimento das cidades e a preservação da bacia hidrográfica.
Novos loteamentos, expansão urbana, impermeabilização do solo e alterações na drenagem podem modificar a forma como a água chega aos cursos d'água.
Para os participantes do debate, acompanhar essas transformações é importante para evitar que avanços obtidos com o saneamento sejam prejudicados por novos impactos ambientais.
A questão deixa de ser apenas “quanto esgoto está sendo tratado?” e passa também por “como o território está sendo ocupado?”.
Licenciamento ambiental será acompanhado
O licenciamento ambiental municipalizado também entrou na pauta.
Segundo informações divulgadas após o encontro, a Câmara Técnica de Outorgas e Licenças (CT-OL) dos Comitês PCJ deverá discutir os impactos desse modelo sobre a Bacia do Rio Jundiaí e sua relação com a efetivação do enquadramento.
A proposta é acompanhar como as decisões tomadas no âmbito municipal podem interferir nas metas de qualidade da água da bacia.
Não se trata apenas de impedir novos impactos. O objetivo é fazer com que decisões sobre ocupação e desenvolvimento do território sejam consideradas dentro de uma visão mais ampla da bacia hidrográfica.
A recuperação não termina com o reenquadramento
O caso do Rio Jundiaí mostra que melhorar a qualidade de um rio é um processo de longo prazo.
O reenquadramento para Classe 3 foi um marco importante, mas não encerra o trabalho. A qualidade da água precisa continuar sendo monitorada, e as condições observadas no rio precisam ser comparadas continuamente com as metas estabelecidas.
Durante o encontro, o diretor-presidente da Agência das Bacias PCJ, Sergio Razera, destacou que o enquadramento exige acompanhamento permanente.
A nova fase do Rio Jundiaí, portanto, envolve uma combinação de fatores: saneamento, drenagem, preservação das áreas naturais, uso do solo, fiscalização e planejamento urbano.
A pergunta agora não é apenas como recuperar o rio, mas como evitar que os avanços conquistados nas últimas décadas sejam perdidos enquanto as cidades continuam crescendo.
Fontes
- DAE Jundiaí — informações sobre o 7º encontro e a trajetória de recuperação do manancial.
- Agência das Bacias PCJ — informações sobre o reenquadramento e acompanhamento da qualidade da água.
- Comitês PCJ — informações sobre a Câmara Técnica de Outorgas e Licenças e o projeto “Conversando sobre o Rio Jundiaí”.
- Sistema Integrado de Gerenciamento de Recursos Hídricos de São Paulo — informações sobre o reenquadramento do Rio Jundiaí.
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