Jundiaí e o antigo Mato Grosso: como a região virou caminho para o interior
Muito antes das rodovias e ferrovias, Jundiaí já ocupava uma posição estratégica entre São Paulo e o interior paulista.
Quando alguém chama Jundiaí de “Portão do Sertão”, a expressão parece combinar perfeitamente com a geografia da cidade.
Mas existe uma história por trás desse apelido.
Jundiaí não começou sendo uma grande passagem para tropas, viajantes e mercadorias. Essa importância foi sendo construída aos poucos, conforme os colonizadores avançavam pelo interior paulista e novas rotas passaram a ligar São Paulo a regiões cada vez mais distantes.
E, para entender esse processo, precisamos voltar novamente ao século XVII.
O que era o “sertão” para quem vivia naquela época?
A palavra “sertão” pode causar uma certa confusão para o leitor de hoje.
Quando ouvimos a expressão, talvez imaginemos uma região seca, distante ou pouco habitada.
Não era necessariamente isso que o termo significava na América portuguesa.
“Sertão” era usado para designar, de maneira geral, áreas afastadas dos núcleos coloniais já estabelecidos. Era uma ideia de distância e de fronteira da ocupação colonial, e não uma descrição precisa de paisagem.
Por isso, uma região podia ser chamada de sertão mesmo sendo coberta por matas, rios, campos e sendo habitada por povos indígenas.
O chamado “Sertão do Jundiahy” estava justamente nesse contexto.
Jundiaí estava além do antigo limite paulista
Um estudo publicado nos Anais do Museu Paulista, da Universidade de São Paulo, descreve a expansão do povoamento paulista para diferentes direções.
A partir de São Paulo, uma das frentes avançava por Carapicuíba em direção a Parnaíba. Outra contornava o Jaraguá e seguia para o sertão do rio Jundiaí.
É nesse segundo movimento que Jundiaí aparece com especial importância.
O estudo identifica Jundiaí como a primeira povoação estabelecida além do Jaraguá nessa direção e relaciona sua formação à ação de moradores de Parnaíba. ([Anais do Museu Paulista, USP])
É uma informação que ajuda a mudar a imagem da cidade naquele período.
Jundiaí não estava simplesmente “no interior”. Ela ocupava uma posição avançada de uma frente de ocupação que saía dos núcleos paulistas já estabelecidos.
São Paulo, Parnaíba e Jundiaí faziam parte de uma mesma expansão
É tentador contar a história como se existisse uma linha reta ligando São Paulo a Jundiaí.
Na realidade, a ocupação era muito mais espalhada.
São Paulo era um dos principais núcleos do planalto. Santana de Parnaíba também ganhou importância e possuía um território muito extenso. A partir desses pontos, diferentes grupos avançavam por caminhos distintos.
A própria história administrativa de Parnaíba ajuda a dimensionar esse território. A vila, criada em 1625, chegou a abranger áreas que hoje correspondem a diversos municípios paulistas, incluindo Jundiaí, Itu e Sorocaba. Jundiaí se separaria desse território no século XVII. ([Câmara Municipal de Santana de Parnaíba])
Isso significa que as fronteiras municipais que conhecemos atualmente não podem ser projetadas sobre o mapa daquela época.
O território era enorme e as povoações ainda eram pequenas.
Jundiaí fazia parte de uma rede em formação.
Mas havia caminhos antes da chegada dos colonizadores
Essa talvez seja uma das partes mais importantes dessa história.
Quando os colonizadores começaram a avançar, eles não encontraram um território sem caminhos.
Os povos indígenas já conheciam profundamente a região. Rios, serras, vales e trilhas faziam parte de suas formas de circulação muito antes da chegada dos portugueses.
Uma pesquisa histórica municipal sobre a atual Estrada de Pirapora afirma que um antigo caminho colonial do século XVII aproveitou um caminho indígena anterior associado ao chamado peabiru, ligando Jundiaí a Santana de Parnaíba e São Paulo de Piratininga.
Essa identificação deve ser tratada com alguma cautela. O estudo municipal apresenta essa interpretação, mas não significa que todos os detalhes sobre o peabiru naquela área sejam consenso entre os pesquisadores.
O ponto mais seguro é outro: os caminhos indígenas antecederam a estrutura viária colonial e ajudaram a orientar a circulação pelo território.
Os colonizadores não estavam começando a descobrir como atravessar aquela paisagem.
Estavam entrando em uma paisagem que já era conhecida por seus habitantes.
A Serra do Japi também fazia parte dessa história
Hoje, a Serra do Japi é vista principalmente como patrimônio natural.
No período colonial, ela também era uma referência concreta na paisagem.
A serra formava um obstáculo natural importante entre diferentes áreas do território, enquanto rios e vales ajudavam a definir os caminhos possíveis.
Estudos e registros sobre a região mostram que a Serra do Japi era habitada por povos indígenas no início do século XVII. Havia grupos com diferentes formas de organização e subsistência, incluindo agricultura, caça e pesca.
Isso significa que a paisagem que posteriormente seria atravessada por caminhos coloniais já tinha seus próprios usos e referências.
A geografia não era apenas um cenário.
Ela ajudava a determinar por onde as pessoas conseguiam passar.
O caminho não era apenas para bandeirantes
A palavra “bandeirante” aparece com frequência quando se conta a história de Jundiaí.
Mas é preciso tomar cuidado para não transformar toda a movimentação colonial em uma única atividade.
As bandeiras tinham diferentes objetivos e características. Havia expedições de apresamento de indígenas, busca de metais e pedras preciosas, exploração territorial e outras formas de avanço pelo interior.
Ao mesmo tempo, havia moradores, agricultores, religiosos, comerciantes e pessoas que simplesmente se deslocavam entre os diferentes núcleos.
Com o crescimento das povoações, os caminhos deixaram de servir apenas às expedições.
Passaram a ser importantes para a sobrevivência econômica das próprias comunidades.
É nesse ponto que Jundiaí começa a ganhar outra característica: a capacidade de abastecer quem passava.
Milho, alimentos e pequenos produtores
A economia de Jundiaí durante boa parte do período colonial não era baseada em grandes plantações destinadas à exportação.
Fontes municipais e estudos sobre a população e a dinâmica econômica da cidade apontam para a importância das pequenas lavouras de subsistência.
Milho e outros alimentos eram produzidos para atender aos moradores e também às pessoas que circulavam pelo território.
Isso parece um detalhe, mas era fundamental.
Uma expedição que passasse dias ou semanas pelo interior precisava de comida. Animais precisavam de alimentação. Viajantes precisavam de lugares para descansar.
Uma região de passagem começava, assim, a criar uma pequena economia em torno da própria circulação.
Jundiaí começou a abastecer quem seguia para o interior
É nesse sentido que a ideia de “Portão do Sertão” faz sentido.
Não porque Jundiaí fosse uma espécie de portal oficial para o interior, mas porque sua posição acabou colocando a vila em uma zona estratégica entre os núcleos paulistas e as áreas que seriam progressivamente ocupadas.
A própria Prefeitura de Jundiaí descreve a região, entre os séculos XVII e XVIII, como uma área de passagem de entradas e bandeiras e registra que as pequenas lavouras abasteciam moradores, tropeiros e bandeirantes.
É uma função que se tornaria ainda mais importante com a abertura de novas rotas no século XVIII.
Uma nova fase começa em 1722
Aqui precisamos fazer uma distinção importante.
Se estamos falando de Jundiaí como caminho para o interior, não devemos imaginar que a famosa Estrada dos Guaiazes já existia em 1615.
Ela é posterior.
Em 1722, uma nova rota de penetração em direção às minas dos Guaiazes, na região de Goiás, foi aberta a partir da expedição de Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera.
Pesquisas publicadas nos Anais do Museu Paulista reconstituíram o traçado dessa estrada e mostram que ela partia da região de São Paulo, passava por Jundiaí e seguia em direção a Mogi Mirim, Mogi Guaçu e outras áreas do interior até alcançar a região das minas de Goiás.
É nesse momento que o papel de Jundiaí como passagem ganha uma dimensão muito maior.
O “Mato Grosso de Jundiahy” era muito maior que a cidade atual
Há outra razão pela qual o nome “Mato Grosso de Jundiahy” pode confundir o leitor.
Ele não designava apenas uma pequena área próxima do atual centro de Jundiaí.
O território administrado pela vila era enorme.
Um estudo da Unicamp sobre a população e a dinâmica econômica de Jundiaí destaca justamente a “vastidão” do território colonial da vila. Segundo o levantamento, suas fronteiras chegavam a regiões muito distantes do núcleo original e, ao longo do tempo, esse território foi sendo reduzido à medida que novos povoados se tornavam freguesias e vilas.
Isso ajuda a entender uma frase que pode parecer exagerada quando aparece isoladamente: a história de Jundiaí também é, em certa medida, a história da formação de outras cidades do interior paulista.
Não porque essas cidades tenham sido simplesmente “fundadas por Jundiaí”, mas porque muitos dos territórios que posteriormente se tornariam municípios estavam dentro da enorme área administrada pela antiga vila.
Campinas ainda fazia parte desse território
Um exemplo ajuda a visualizar essa transformação.
No século XVIII, uma área conhecida como “Mato Grosso de Jundiahy” passou a ser atravessada pelo caminho que seguia em direção às minas de Goiás.
Ali surgiram pousos para viajantes e tropas, e a região conhecida como Campinas do Mato Grosso de Jundiahy começou a ganhar importância.
Pesquisas acadêmicas sobre a formação de Campinas mostram que a abertura da Estrada dos Guaiazes, em 1722, foi decisiva para a criação desses pousos e para a posterior formação do núcleo que daria origem à cidade.
Em 1774, Campinas foi elevada a freguesia ligada à vila de Jundiaí. Só em 1797 se tornaria uma vila independente.
Esse exemplo mostra como o território de Jundiaí foi se transformando ao longo do tempo.
Primeiro, havia um enorme termo colonial.
Depois, surgiam novos núcleos.
Esses núcleos cresciam.
E, finalmente, alguns deles se separavam administrativamente.
Quatro dias para atravessar o “mato grosso”
Uma das descrições mais interessantes desse período aparece justamente no relato da expedição de 1722.
Um participante da bandeira registrou que, depois de sair de São Paulo, a expedição entrou no “mato” associado a Jundiaí e levou quatro dias para atravessá-lo antes de chegar ao rio Mogi.
A pesquisa de reconstituição da Estrada dos Guaiazes utiliza esse relato para mostrar a dimensão da área de mata que existia entre Jundiaí e Mogi naquele momento.
É uma informação que ajuda a imaginar uma paisagem completamente diferente da atual.
Hoje, sair de Jundiaí em direção a Campinas significa atravessar uma região intensamente urbanizada, cortada por rodovias, indústrias, condomínios e áreas agrícolas.
Naquele período, havia trechos em que uma expedição podia passar dias atravessando áreas de mata.
O caminho também criava oportunidades
Uma rota não serve apenas para levar pessoas de um ponto a outro.
Ela também cria pontos de parada.
Quem viaja precisa comer, descansar, trocar animais, comprar mantimentos e, em alguns casos, permanecer por algum tempo.
A documentação sobre o caminho dos Guaiazes mostra justamente a formação de pousos e atividades ligadas ao abastecimento dos viajantes.
Um exemplo aparece em 1732, quando Alexandre Simões Vieira, morador da vila de Jundiaí, abriu uma nova ligação entre a vila e a região dos Campinhos e passou a explorar uma venda de gêneros para os viajantes, além de manter uma roça no caminho.
É um pequeno episódio, mas revela uma mudança importante.
A estrada não era somente uma linha no mapa.
Ela já começava a produzir uma economia própria.
Jundiaí não era o destino. E justamente por isso ganhou importância
Existe uma aparente contradição na história da cidade.
Jundiaí ganhou importância justamente por estar entre lugares que muitas pessoas queriam alcançar.
São Paulo ficava para trás.
O sertão estava adiante.
Entre os dois, havia uma vila que podia oferecer terras, alimentos, caminhos e pontos de apoio.
Essa posição ajudou a construir uma característica que Jundiaí conservaria por séculos: a capacidade de funcionar como ligação.
Mais tarde, essa mesma característica apareceria com a ferrovia.
Depois, nas rodovias.
E, muito mais tarde, na logística e na indústria.
Mas seria um erro dizer que a Jundiaí moderna já estava “prevista” no século XVII.
O que podemos afirmar é algo mais simples: a posição geográfica da região já tinha importância para os deslocamentos pelo interior e essa condição seria reaproveitada por diferentes sistemas de transporte ao longo dos séculos.
O que as fontes concordam — e onde precisamos ter cuidado
Quando cruzamos as fontes, algumas coisas aparecem com bastante consistência.
Jundiaí estava ligada à expansão paulista para além do Jaraguá. A região fazia parte de uma frente de ocupação que conectava diferentes núcleos coloniais. O território da vila era muito maior do que o município atual. E, a partir do século XVIII, novas rotas passaram por Jundiaí e contribuíram para a formação de outros núcleos do interior.
Também há evidências de que a circulação indígena precedeu as rotas coloniais e que caminhos anteriores foram aproveitados ou transformados pelos colonizadores.
Mas existem afirmações que precisam ser tratadas com mais cuidado.
Não é seguro transportar a Estrada dos Guaiazes para 1615: ela pertence a uma fase posterior, iniciada em 1722.
Também é melhor não afirmar que Jundiaí era simplesmente “a única passagem” ou uma “passagem obrigatória” para todo o interior paulista. Existiam diferentes frentes e caminhos, e a própria pesquisa acadêmica sobre a formação da Capitania de São Paulo mostra a existência de várias direções de expansão.
E chamar todos os que circulavam pela região de bandeirantes seria reduzir uma sociedade muito mais diversa.
A história fica mais interessante justamente quando deixamos essas simplificações de lado.
De sertão a ponto de ligação
Talvez essa seja a melhor maneira de resumir a transformação.
No começo do século XVII, Jundiaí estava na frente de expansão de um território que os colonizadores chamavam de sertão.
Com o passar das décadas, o povoamento se consolidou.
Em 1655/1656, tornou-se vila.
Depois, novas rotas foram abertas, o território administrado pela vila cresceu e outros núcleos começaram a aparecer em áreas que pertenciam ao enorme termo de Jundiaí.
A antiga região chamada de “Mato Grosso de Jundiahy” passou a ser atravessada por caminhos que levavam cada vez mais longe.
E Jundiaí deixou de ser apenas um lugar na borda do povoamento paulista.
Tornou-se um ponto de ligação.
Essa mudança levaria muito tempo para amadurecer, mas deixaria uma marca profunda na história da cidade.
O próximo capítulo: quando o território começou a encolher
Se hoje olhamos para Jundiaí e vemos um município com limites relativamente pequenos, é difícil imaginar o tamanho do território que já esteve sob a administração da antiga vila.
Mas aquele enorme território não permaneceu unido.
Ao longo do século XVIII e dos séculos seguintes, novos povoados cresceram, freguesias foram criadas e diferentes regiões começaram a conquistar autonomia administrativa.
Campinas é um dos exemplos mais conhecidos desse processo.
Outros municípios também surgiriam de áreas que, em algum momento, estiveram ligadas ao território de Jundiaí.
É por isso que o próximo passo da nossa história pode ser ainda mais surpreendente:
Jundiaí já foi muito maior do que é hoje.
E entender como esse território foi sendo dividido ajuda a explicar não apenas a formação de Jundiaí, mas também o nascimento de várias cidades do interior paulista.
Fontes consultadas
- Universidade de São Paulo — Anais do Museu Paulista, “Dilatação dos confins: caminhos, vilas e cidades na formação da Capitania de São Paulo (1532-1822)”.
- Universidade de São Paulo — Anais do Museu Paulista, “Reconstituição do traçado da estrada dos Goiases no trecho da atual mancha urbana de Campinas”.
- Universidade de São Paulo — estudo sobre os caminhos de ocupação e formação dos núcleos paulistas.
- Unicamp — Processos Migratórios: População e Dinâmica Econômica da Cidade de Jundiaí.
- Prefeitura de Jundiaí — História do município.
- Prefeitura de Jundiaí — pesquisa histórica sobre a Estrada de Pirapora.
- Arquivo Histórico e Centro de Memória de Jundiaí — documentação colonial e Cartas de Datas.
- Universidade de São Paulo — estudos arqueológicos e históricos sobre a presença indígena em Jundiaí.
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